Touring Club : transponibilidade e direito à cidade

Cecília Gomes de Sá

Touring-Maquete

Nessa semana teve início uma nova discussão sobre a antiga sede do Touring Club de Brasília, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Após ser leiloado pelo poder público, o edifício, que é tombado, foi alugado a uma igreja que, segundo matérias no jornal Correio Braziliense e publicação na rede social de Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, estaria descaracterizando a arquitetura original e o uso previsto. O prédio, que fica na Plataforma da Rodoviária, foi projetado para abrigar uma casa de chás avarandada, mas houve uma mudança de programa e em 1963 foi construído como um “centro de serviços culturais e turísticos”  do clube de automóveis ver reprodução da Revista Módulo, n.30 abaixo. No piso inferior havia uma estação de reparos, manutenção e abastecimento, como é costume nesse tipo de atividade. Após o fechamento do Touring Club, o local já passou por diversas atividades, entre elas, exposição de decoração, posto de gasolina, posto policial e agora anexo da Rodoviária de Brasília.

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despedida a três artífices

Entre as noites de 27 de julho e 2 de agosto de 2008, a arquitetura brasileira perdeu três de seus grandes artífices: o artista Athos Bulcão, e os arquitetos Joaquim Guedes e Milton Ramos.
Artífice é palavra que cai bem aos três, pois significa a uma vez artesão e inventor, sugerindo que é da prática cotidiana do ofício que decorre a inovação.
Joaquim Guedes foi artífice do discurso aquitetônico, manifestado em seus textos, edifícios, planos urbanísticos, na prática docente, na política. Em todas estas instâncias, o cuidado e o labor no talho da palavra deixou a marca da profundidade no texto. Tendo se formado em 1954, participou do concurso de anteprojetos para o Plano Piloto de Brasília, afirmando já ali a integração indissociável entre todas aqueles campos da arquitetura.
Athos Bulcão foi artífice das artes. Dominava o desenho e a pintura com a desenvoltura que lhe rendeu diversos prêmios em exposições e concursos. Mas foi na integração de sua obra com a arquitetura que um novo mundo de possibilidades se abriu. E foi em Brasília, com seus painéis e sua azulejaria que o artista ajudou a construir uma nova paisagem para o dia-a-dia. Athos sinalizou com o cuidado de um ourives que qualquer material, tratado com compreensão, torna-se arte.
Milton Ramos foi artífice do projeto e da construção. Logo de início emprestou seus cuidados e seu suor ao legendário milhar de pranchas que compõem o detalhamento do Palácio do Itamaraty – desta obra prima de nossa construção . E mais além do cotidiano do projeto, foi nas obras do cotidiano brasiliense que Milton exerceu seu trabalho exaustivo. Seus edifícios residenciais, seus clubes, seus aeroportos, destacam-se pelo zelo no trato dos materiais, pela ordenação clássica dos elementos construtivos, pela disposição espacial simples e rica. E fascinam a todo aquele que, envolvido ou não com o mundo da construção, admira um trabalho bem cuidado.
Três artífices. Três conjuntos de obras tão diversas e tão similares, e todas de algum modo ligadas a Brasília. Três ausências monumentais no lapso de uma semana. Cabe a nós buscar estudá-las e entendê-las para fazer do trabalho desses homens uma lição.

danilo matoso macedo
arquiteto e urbanista
núcleo docomomo brasília

homenagem a milton ramos

Milton Ramos foi sem dúvida arquiteto de grande destaque dentre aqueles que presenciaram um momento de afirmação da modernidade arquitetônica no Brasil e seu posterior desenvolvimento. É figura chave na realização da cidade nova a que Brasília viria encarnar, tendo contribuído para esta realização com edifícios de excepcional riqueza plástica e construtiva.

Moderno na formação e pelo ambiente cultural que vivenciou no Rio de Janeiro que vinha se transformando radicalmente desde a década de 1930, Milton é responsável por uma obra de coerência e resultado, sendo expoente entre uma geração que se viu diante dos desafios de transformação vindicados por um país que há muito buscava sua identidade.

Formado pela faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil em dezembro de 1958, vem para Brasília apenas dois meses depois em busca de ampliar sua experiência profissional, o que de fato acontece, quando passa a integrar o quadro de profissionais da Construtora Pederneiras S.A, oportunidade que se soma a outras de igual importância, e que fizeram com que Milton se tornasse personalidade notória dentre os arquitetos responsáveis pela realização de Brasília em todas as escalas previstas no plano urbanístico de Lucio Costa. O êxito como construtor lhe confere uma imensa capacidade de realização e anos seguintes ao abrir o próprio escritório, a oportunidade de projetar certa variedade de temas de importância histórica e artística para Brasília.

Do convívio com profissionais, do aprendizado construtivo, das dificuldades encontradas na administração dos canteiros, é de onde Milton Ramos parecia extrair parte de sua propriedade projetiva, caracterizada nem tanto pela economia irrestrita de meios, mas sim, pela sua correta potencialização. Elementos que numa crítica comum são vistos como inerentes à realização da arquitetura moderna – pilotis, escadas escultóricas, clareza estrutural e rigor na aplicação material – nas mãos do arquiteto parecem ter o valor revelado e transformado; o projeto como verdade.

Milton foi sempre lembrado por contribuições preciosas na execução de algumas obras de Oscar Niemeyer, a mais notável o Palácio do Itamaraty, em que a riqueza no trato de inúmeras soluções é essencial para a distinção e integridade deste edifício. Mas cabe ressaltar que sua obra figura dentre as mais profícuas de uma geração fundamental para compreensão de nossa arquitetura e possui contundente autonomia propositiva, conciliando características construtivas e espaciais em edifícios onde prevalece o rigor pelo detalhe, a distinção no tratamento de volumes e superfícies, e uma criteriosa solução de elementos estruturais.

Escrevo como quem se debruçou com paixão e vontade sobre a obra desse mestre nos meses recentes e mesmo não tendo a oportunidade de desfrutar de seu convívio, posso reiterar o depoimento que colhi daqueles que puderam: de um homem leal, convicto, fiel a si mesmo e comprometido com as causas pelas quais se empenhou.

Tristes esses dias em que perdemos para o tempo dois magníficos artistas.

Carlos Henrique Magalhães.