Projeto da Praça da Soberania causa polêmica

Praça da Soberania - 2009

Proposta de Niemeyer para o Eixo Monumental divide população e especialistas

A discussão sobre a Praça da Soberania, projeto de autoria de Oscar Niemeyer encampado pelo Governo do Distrito Federal, saiu do campo da arquitetura, ganhou as ruas e a grande imprensa, passou pelo Ministério Público, e não dá mostras de chegar a termo.

O associado do docomomo brasília, Eduardo Rossetti, resume o debate:

O gênio na berlinda

ou, sobre o “dono da bola” e o campo

Hoje, dia 30 de janeiro, faz exatos 20 dias que o Correio Braziliense publicou em sua edição de sábado, 10 de janeiro, uma reportagem sobre um novo projeto do arquiteto Oscar Niemeyer para a Esplanda dos Ministérios de Brasília. Faz também quase 20 dias que uma movimentação de arquitetos, professores universitários, políticos, jornalistas, motoristas de táxi, ascensoristas, diplomatas, representantes de entidades de classe, conselhos urbanos, órgãos de preservação, além do próprio Ministério Público e de pioneiros candangos, estão discutindo acaloradamente a proposta, sua escala, seus custos, seus méritos e deméritos e até mesmo sua legalidade. Não é o valor ou a dimensão pessoal de Oscar Niemeyer que estão em discussão, não é este o foco!

Uma cidade que convive em seu dia-a-dia com as obras de Oscar Niemeyer nos espaços urbanos de Lucio Costa está exercitando sua cidadania, deixando seu mito de origem em sua própria trajetória histórica. O que entrou em pauta foi um debate que extrapolou, rapidamente, o que poderia ter sido apenas uma refrega nas trincheiras acadêmicas do campo arquitetônico. Um artigo de Sylvia Ficher, publicado no dia 12 no site http://www.mdc.arq.br, ganhou visibilidade graças à coluna do jornalista Elio Gaspari na Folha de São Paulo, logo no dia 15, alcançando a grande imprensa e repercutindo em diversas matérias jornalísticas. Ainda que com observações e avaliações de toda ordem, o foco da discussão nas mais diversas instâncias do debate tem sido a manutenção das qualidades espaciais e simbólicas da escala monumental de Brasília, o respeito às legislações urbanísticas e patrimoniais vigentes, além de indiretamente, fazer aflorar a questão da rotina impreterível de concursos públicos para obras arquitetônicas.

É tudo isso que, difusamente, tornou-se um problema para a cidade, comprovando o interesse daqueles que nela habitam, convivendo com as arquiteturas excepcionais que Oscar Niemeyer, original e magistralmente, articulou com o Plano Piloto de Lucio Costa, aliás e sobretudo, na escala monumental!

O transcurso, a força e o alcance de uma discussão tão cotidiana sobre a própria cidade —desde as páginas de jornais e revistas, passando pelas imagens de TV e pela ágil conexão dos meios digitais— demonstra cabalmente que Brasília já não quer e nem pode ser o canteiro preferencial de experimentação de um único arquiteto, ainda que este seja genial, aguerrido e longevo como só Oscar Niemeyer consegue ser. Ele permanece o “dono da bola”, mas talvez não seja mais o vetor exclusivo, o único grande articulador de um campo de conhecimento —o da arquitetura!— cuja legitimidade em larga medida foi por ele instaurada e que agora, tornando-se objeto de embates públicos e de interesse popular, dá provas de sua saudável existência.

Eduardo Pierrotti Rossetti
Arquiteto, doutor em arquitetura e urbanismo, pesquisador-pleno e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília

Leia mais sobre a Praça da Soberania em mdc

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