homenagem a milton ramos

Milton Ramos foi sem dúvida arquiteto de grande destaque dentre aqueles que presenciaram um momento de afirmação da modernidade arquitetônica no Brasil e seu posterior desenvolvimento. É figura chave na realização da cidade nova a que Brasília viria encarnar, tendo contribuído para esta realização com edifícios de excepcional riqueza plástica e construtiva.

Moderno na formação e pelo ambiente cultural que vivenciou no Rio de Janeiro que vinha se transformando radicalmente desde a década de 1930, Milton é responsável por uma obra de coerência e resultado, sendo expoente entre uma geração que se viu diante dos desafios de transformação vindicados por um país que há muito buscava sua identidade.

Formado pela faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil em dezembro de 1958, vem para Brasília apenas dois meses depois em busca de ampliar sua experiência profissional, o que de fato acontece, quando passa a integrar o quadro de profissionais da Construtora Pederneiras S.A, oportunidade que se soma a outras de igual importância, e que fizeram com que Milton se tornasse personalidade notória dentre os arquitetos responsáveis pela realização de Brasília em todas as escalas previstas no plano urbanístico de Lucio Costa. O êxito como construtor lhe confere uma imensa capacidade de realização e anos seguintes ao abrir o próprio escritório, a oportunidade de projetar certa variedade de temas de importância histórica e artística para Brasília.

Do convívio com profissionais, do aprendizado construtivo, das dificuldades encontradas na administração dos canteiros, é de onde Milton Ramos parecia extrair parte de sua propriedade projetiva, caracterizada nem tanto pela economia irrestrita de meios, mas sim, pela sua correta potencialização. Elementos que numa crítica comum são vistos como inerentes à realização da arquitetura moderna – pilotis, escadas escultóricas, clareza estrutural e rigor na aplicação material – nas mãos do arquiteto parecem ter o valor revelado e transformado; o projeto como verdade.

Milton foi sempre lembrado por contribuições preciosas na execução de algumas obras de Oscar Niemeyer, a mais notável o Palácio do Itamaraty, em que a riqueza no trato de inúmeras soluções é essencial para a distinção e integridade deste edifício. Mas cabe ressaltar que sua obra figura dentre as mais profícuas de uma geração fundamental para compreensão de nossa arquitetura e possui contundente autonomia propositiva, conciliando características construtivas e espaciais em edifícios onde prevalece o rigor pelo detalhe, a distinção no tratamento de volumes e superfícies, e uma criteriosa solução de elementos estruturais.

Escrevo como quem se debruçou com paixão e vontade sobre a obra desse mestre nos meses recentes e mesmo não tendo a oportunidade de desfrutar de seu convívio, posso reiterar o depoimento que colhi daqueles que puderam: de um homem leal, convicto, fiel a si mesmo e comprometido com as causas pelas quais se empenhou.

Tristes esses dias em que perdemos para o tempo dois magníficos artistas.

Carlos Henrique Magalhães.

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